The Good Doctor e o preconceito contra o TEA

Texto originalmente escrito em 19/01/2017.

Hoje estava jogando futebol e um garoto autista entrou no campo. Ele tem cinco anos. E é acompanhado há três. Ele correu atrás da bola, mas não conseguia chutar. Seu corpo ainda não tinha desenvolvido essa habilidade. Joguei a bola para ele, ele veio carregando. Quando chegou perto de mim, esqueceu da bola e me deu um abraço. Essa situação se repetiu mais duas vezes. Fiquei curioso e perguntei para o homem que o acompanhava: “O que ele tem?”. Ele tem TEA.


TEA ou Transtorno do Espectro Autista refere-se a uma série de condições caracterizadas por desafios com habilidades sociais, comportamentos repetitivos, fala e comunicação não-verbal, bem como por forças e diferenças únicas. Esse transtorno é popularmente conhecido como autismo.


Esse texto contém spoilers a partir daqui (mas vale a pena ler).

The Good Doctor é uma série americana exibida pelo canal ABC e criada por David Shore. Agora, sua primeira temporada está disponível no Brasil no serviço de streaming da Globo, o Globoplay

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Shaun Murphy, personagem fictício de Freddie Highmore (o Norman de Bates Motel), é um jovem cirurgião residente do Hospital San Jose Bonaventure. Shaun, além de autista, possui a síndrome de Savant, o que lhe confere uma memória extraordinária.

Shaun viveu seu primeiro trauma quando seu irmão mais novo, seu anjo da guarda, faleceu. Porém, felizmente, encontrou um novo anjo, o Dr. Aaron Glassman.

Shaun decidiu tornar-se cirurgião tendo o objetivo de salvar vidas e não deixar acontecer fatalidades como a de seu irmão. Entretanto, ele tem que passar por um caminho árduo antes de alcançar seu objetivo.

Shaun sofre preconceito pela primeira vez quando o conselho do hospital não permite a contratação dele por ser autista, alegando que ele não conseguiria ocupar tal posição.

Mas Shaun vai em busca de seu lugar e ao mostrar seu talento e suas motivações supera o primeiro obstáculo em sua jornada.

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Shaun é contratado pelo hospital e é subestimado mais uma vez. Seu “chefe”, o cirurgião Dr. Melendez, o coloca encarregado de atividades básicas por não querer Shaun em sua equipe nas cirurgias.

Mas Shaun, novamente, mostra seu valor e conquista o boss.

Seu terceiro desafio está logo ali. Pais de um garoto autista, que estava sob cuidados de Shaun, não permitem que Shaun participe de sua cirurgia, por não ter confiança no Dr. Murphy, mais uma vez, devido ao transtorno que ele possui.

Shaun acaba aceitando a decisão, todavia o paciente se manifesta e diz que quer Dr. Murphy na cirurgia. Mais uma vitória pra Shaun, que por ter se identificado com o garoto, foi extremamente cuidadoso e conquistou o paciente.

E as situações de preconceito não acabam.


Em um mundo em que o preconceito é visto a todo tempo, The Good Doctor mostra de forma “sutil” o quanto a sociedade é ruim e julga um ser humano sem ter noção de seus problemas ou mesmo de seus talentos. Shaun precisa se provar a todo tempo, para que as pessoas não o julguem. Pórem, ele não escolheu portar TEA. Ele não tem culpa se não consegue se relacionar em meios sociais da mesma forma de quem não tem TEA. Ele não tem culpa se não gosta de ser tocado, nem mesmo apertos de mão. E cabe a todos aceitar e respeitar as condições dele. Shaun é só mais um exemplo fictício do que acontece com várias pessoas todos os dias.

E espero que o garoto de cinco anos que encontrei tenha sorte em sua vida e enfrente o mínimo de preconceito possível. E que possa seguir sonhos e objetivos da mesma forma que Shaun, porém sem o obstáculo do preconceito.

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The Good Doctor agrada tanto quem adora séries que envolvem medicina (vide Grey’s Anatomy) quanto quem gosta de séries que abordam relações sociais (vide Big Little Lies).

The Good Doctor é tão boa em sua função, que discute ética, arianismo, machismo, assédio e empoderamento feminino (além do autismo). Todos de forma bem sutil, aliados a trama, que contribuem ainda para a construção dos personagens e andamento do enredo.

The Good Doctor era pra ser uma série simples, mas parece ser mais complexa do que parece.

Parabéns, David Shore!

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